Segundo
Holden Caulfield, a gente sabe se um livro é realmente bom se temos vontade de
ligar pra o autor e conversar com ele logo após a leitura. Vontade de conversar
sobre a obra, o que ele acha dos personagens, do seu futuro. Vontade até de
abraçar o criador daquilo que nos envolveu e mexeu com nossos pensamentos e
sensações durante tantas horas. É interessante poder falar o mesmo de sua
estória. Holden é o personagem principal do clássico “The Catcher in the Rye” (O Apanhador no Campo de Centeio) de J.
D. Salinger, obra que deveria ser de leitura obrigatória não só para jovens e
adolescentes, com tanta bobagem sendo lançada cada ano, mas por qualquer pessoa
que gosta de narrativas simples e, acima de tudo sinceras.
E
se há um elogio que podemos fazer a obra é sobre sua sinceridade. Holden é um
adolescente que acabou de ser reprovado em quase todas as matérias e será
expulso da escola. Meio maluco, como ele mesmo se descreve, e estranho – como
os outros o vêem. E aí está a graça. Adolescentes são estranhos, essa fase toda
é estranha, e poucas pessoas parecem entender, apesar de já terem passado por
ela. Isso gera caminhos de identificação imediatos com o personagem. Mesmo
situada em outra época e com gírias e expressões não mais usadas, não há como
não se identificar exatamente porque o livro é honesto em seus pensamentos. Ou
cem por cento, nos termos do personagem central.
Narrando
em primeira pessoa sua fuga do colégio e as horas vagando em NY a procura de
ter o que fazer ou de alguém para conversar, em alguns momentos ele quer ser
ouvindo e não há ninguém para isso. Em outros demonstra mudanças de emoções
entre exultação e depressão. Às vezes odeia a todos, mas só por alguns
momentos. Sofre com a morte recente de um irmão, chama a todos de hipócrita por
suas controversas e acredita que o irmão mais velho se prostituiu ao deixar
usar seu talento de escritor para escrever roteiros em Hollywood. Mas ele mesmo
se considera um paradoxo e não entende porque age de algumas formas. Extrapola
na imaginação, o que faria ou deixaria de fazer, e depois se entristece por não
conseguir. Ama, odeia, sente saudades...
E ainda assim tudo parece fazer sentido, do jeito meio caótico que só a
vida permite.
Não
se devem procurar grandes acontecimentos e reviravoltas ou mesmo grandes
diálogos. Tudo tem aquele tom meio agridoce e são em acontecimentos
superficiais que nos aprofundamos na memória de Holden, como seu gosto pelas
crianças, por as considerarem sinceras e simples – e quem sabe por que ainda
não se sente completamente no mundo adulto que repudia. Exemplo é sua irmã
menor, Pheobe, que considera a única pessoa que realmente gosta de conversar e
o leva, talvez, a uma redenção (?) ou reencontro com o prazer de viver sem
necessidades de fugir mundo afora.
Há
aqui um apelo universal. A fase complicada, e por vezes desprezada. As
conversas sobre sexo, futuro, fuga da realidade, e pretensos intelectuais; a
negação do companheirismo e até mesmo a auto-limitação. Muita coisa passa pela
cabeça quando lemos “O Apanhador”, e por vezes me identifiquei com os
pensamentos e visões descritas. Varias vezes, realmente, temos vontade de
abraçar seus personagens e ligar para o autor e conversar sobre eles. São tão
reais e honestos, às vezes duros, às vezes simpáticos, às vezes chatos e
patéticos. Não há como não amar essa obra.
P.S.2: Recomendo o texto da Fernanda Couto (O Clássico da inocência
perdida), quem tem varias coisas interessantes: http://www.tracaonline.com.br/resenha.php?id=34
P.S.3: Não fora de tempo, na palavra do próprio Holden
encontramos o porquê do nome do livro: “Fico imaginando uma porção de
garotinhos brincando no campo de centeio. Milhares de garotinhos e ninguém por
perto. Eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê eu tenho que
fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo.”
P.S.4: Será que agora volto de vez para o blog? Mistério...

Bom, aparenta ser um livro que permeia essa construção do ser e da explosão que existe nessa fase que todos passamos. Gostei do post, espero que volte a postar, rs e comece a interagir no face também. rs
ResponderExcluirBjs