Enquanto enrolo para desenrolar o TCC (que feio!) consegui terminar um livro que há muito desejava ter em mãos. “Contos Completos” de Flannery O’Connor (Editora Cosac Naify) me surgiu em uma promoção da livraria cultura no mês de Julho, e não pude perder, pois os livros da COSACNAIFY têm sempre excelente qualidade e acabamento, coisa de colecionador mesmo. Fora a promoção eu não sabia que havia qualquer livro da autora e já estava a algum tempo interessado, pois um dos meus autores cristãos prediletos, Philip Yancey, sempre a cita em seus livros e mais recentemente Brennan Manning a citou em outro livro, “O Impostor que vive em mim”. Com tão boas indicações, não hesitei em comprar, mas demorei a terminar não pelas mais de 600 paginas e sim pelo conteúdo indescritível.
F. O’Connor é, como toda autora, produto de sua época, vivencias e crenças, mas isso somente não faz uma boa escritora. É preciso olhar com mais cuidado para o mundo e saber passar isso para o papel. E isso ela faz brilhantemente. Seus textos são ricos em descrições e diálogos que nos fazem submergir na obra e nos deixam pasmados com o desenlace. Não a toa, tinha que parar um bom tempo antes de ler novo texto, tal complexidade dos contos. Não conseguia simplesmente ir para o próximo sem pensar nos contextos ou no que a autora estaria querendo me passar. Cada descrição, que a colocou como uma das representantes do realismo no sul dos EUA, não está por acaso. É para ler e pensar no que se lê, é preciso compromisso.
Parte da importância que dava a escrita pode ser vista em alguns contos que tratam da agonia de ser um autor, de ter uma ideia e tentar conta-la, desenvolve-la. Textos como “O barbeiro” mostram, e quem sabe gere identificação, a dificuldade de se expressar e defender ideias. Em “O Calafrio constante” temos alguém que se descobre sem aptidão ou talento algum para a escrita, a ponto de desejar a morte, enquanto “O fetival da Azaléia de Patridge” nos leva a acompanhar dois escritores que buscam ir contra os pensamentos de uma cidade. Um que me chamou bastante atenção foi “A colheita”, onde pensamentos do narrador se fundem a uma escritora que na verdade sonha com elementos de seu cotidiano, como o homem desejado que pertence a outra.
Dentre os elementos marcantes de sua obra estão os próprios americanos do sul pós-derrota da guerra civil, os moradores do interior, “Boa gente da roça”, os problemas de preconceito racial e, claro, religião – como católica em um meio basicamente protestante, ela tinha muito a escrever. Quanto à questão de racismo, o primeiro texto, “O gerânio”, que apresenta uma variante em “O dia do juízo final”, nos apresenta o velho Dudley, forçado a morar em NY com a filha e passando a viver em um mundo completamente diferente do que tinha no interior. Somos conduzidos a uma empatia com o velho, mas percebemos com o passar da narração sua maior contradição: se importava mais com um vaso de gerânio que todo dia era colocado pelo vizinho da frente na janela, para tomar sol, do que com o reconhecimento do vizinho negro como ser humano como ele. Texto lindo de se ler e que nos faz ter uma visão americana que não obtemos costumeiramente na TV. O preconceito é algo enraizado, e aqui é apresentado sem pré-julgamentos ou condenações, somente mostrado.
O fator religião também é uma constante nas obras, e a autora pode até ser acusada de proselitismo, como bem faz o comentarista Cristovão Tezza no posfácio, mas discordo do comentarista em questão. A obra de um autor é fruto de quem ele é e também do que crê, porque deveria ela se afastar do catolicismo ou mesmo de uma visão moralista? Isso não é ruim, é autenticidade. Num mundo que tudo tenta rotular e separar, observamos a vida como ela é, e como a autora pensa. Brennan Manning chega a comentar o conto “O Peru” em seu livro, mas que prazer foi ler e refletir sobre as camadas desvendadas na historia de um menino que ao correr por uma hora atrás do Peru ferido, pensando em como as pessoas o irão admirar, acaba caindo e se lamentando com Deus. É honesto e me fez pensar, assim como Manning, em como mudamos nossa perspectiva de Deus de acordo com as circunstancias e não como algo pessoal e constante. Textos como “Os aleijados entrarão primeiro” não são tão sutis, mas a não deixam de ser interessantes.
Por fim, devo dizer, a obra cansa um pouco porque com o tempo percebemos que não há de se esperar um final feliz, ou uma conclusão fechada. Grande parte dos contos termina em tragédia, mas não uma tragédia do destino, é algo fruto das decisões dos personagens. Conforme a leitura prossegue percebemos que aquilo não pode terminar bem, e não o faz. Não é uma tragédia sem justificativa, mas sim resultado do próprio livre arbítrio. E algumas são chocantes. Como não se chocar com os desfechos de “Um homem bom é difícil de encontrar”, “O ultimo encontro com o inimigo”, ou “O rio”, ou mesmo “O refugiado da guerra”? Aliás, preciso dizer que esses são contos indicados e indispensáveis. Outro nível.
Alguns contos não inesquecíveis, e exigiram um pouco de paciência e até releitura dos fechamentos, nada é gratuito. As historias são construídas e realistas, materiais. Aliás, não a toa que nem nos círculos católicos a autora foi bem recebida, há não só tragédia, mas violência em diversas passagens, como na perturbável cena de um avô e sua pequena neta em um choque irônico devido ao avanço do modernismo para o campo, em “Uma vista da mata”.
Leitura indispensável!
“A menina doutorou-se em filosofia e isso deixara Mrs. Hopewell no mais completo embaraço. Qualquer um bem que podia dizer “Minha filha é enfermeira”, ou “Minha filha é professora do ensino básico”, ou até mesmo “Minha filha é engenheira química”. Mas quem diria “Minha filha é filosofa”, se isso era coisa morta e acabada desde os romanos e os gregos?.” (Conto “Gente boa da roça”)



