quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Resenha: “The Catcher in the Rye” (O Apanhador no Campo de Centeio)



  

              Segundo Holden Caulfield, a gente sabe se um livro é realmente bom se temos vontade de ligar pra o autor e conversar com ele logo após a leitura. Vontade de conversar sobre a obra, o que ele acha dos personagens, do seu futuro. Vontade até de abraçar o criador daquilo que nos envolveu e mexeu com nossos pensamentos e sensações durante tantas horas. É interessante poder falar o mesmo de sua estória. Holden é o personagem principal do clássico “The Catcher in the Rye” (O Apanhador no Campo de Centeio) de J. D. Salinger, obra que deveria ser de leitura obrigatória não só para jovens e adolescentes, com tanta bobagem sendo lançada cada ano, mas por qualquer pessoa que gosta de narrativas simples e, acima de tudo sinceras. 

                E se há um elogio que podemos fazer a obra é sobre sua sinceridade. Holden é um adolescente que acabou de ser reprovado em quase todas as matérias e será expulso da escola. Meio maluco, como ele mesmo se descreve, e estranho – como os outros o vêem. E aí está a graça. Adolescentes são estranhos, essa fase toda é estranha, e poucas pessoas parecem entender, apesar de já terem passado por ela. Isso gera caminhos de identificação imediatos com o personagem. Mesmo situada em outra época e com gírias e expressões não mais usadas, não há como não se identificar exatamente porque o livro é honesto em seus pensamentos. Ou cem por cento, nos termos do personagem central. 

                Narrando em primeira pessoa sua fuga do colégio e as horas vagando em NY a procura de ter o que fazer ou de alguém para conversar, em alguns momentos ele quer ser ouvindo e não há ninguém para isso. Em outros demonstra mudanças de emoções entre exultação e depressão. Às vezes odeia a todos, mas só por alguns momentos. Sofre com a morte recente de um irmão, chama a todos de hipócrita por suas controversas e acredita que o irmão mais velho se prostituiu ao deixar usar seu talento de escritor para escrever roteiros em Hollywood. Mas ele mesmo se considera um paradoxo e não entende porque age de algumas formas. Extrapola na imaginação, o que faria ou deixaria de fazer, e depois se entristece por não conseguir. Ama, odeia, sente saudades...  E ainda assim tudo parece fazer sentido, do jeito meio caótico que só a vida permite. 

                Não se devem procurar grandes acontecimentos e reviravoltas ou mesmo grandes diálogos. Tudo tem aquele tom meio agridoce e são em acontecimentos superficiais que nos aprofundamos na memória de Holden, como seu gosto pelas crianças, por as considerarem sinceras e simples – e quem sabe por que ainda não se sente completamente no mundo adulto que repudia. Exemplo é sua irmã menor, Pheobe, que considera a única pessoa que realmente gosta de conversar e o leva, talvez, a uma redenção (?) ou reencontro com o prazer de viver sem necessidades de fugir mundo afora.

                Há aqui um apelo universal. A fase complicada, e por vezes desprezada. As conversas sobre sexo, futuro, fuga da realidade, e pretensos intelectuais; a negação do companheirismo e até mesmo a auto-limitação. Muita coisa passa pela cabeça quando lemos “O Apanhador”, e por vezes me identifiquei com os pensamentos e visões descritas. Varias vezes, realmente, temos vontade de abraçar seus personagens e ligar para o autor e conversar sobre eles. São tão reais e honestos, às vezes duros, às vezes simpáticos, às vezes chatos e patéticos. Não há como não amar essa obra.   

P.S.1: O Apanhador no Campo de Centeio entra fácil na minha lista de melhores livros e altamente recomendados. Talvez se torne a melhor leitura do ano! Só para relembrar, nos anos anteriores as melhores foram: Nada de Novo no Front de Erich Maria Remarque; e O Senhor das Moscas, de William Golding. Vale a pena ler os três. 

P.S.2: Recomendo o texto da Fernanda Couto (O Clássico da inocência perdida), quem tem varias coisas interessantes: http://www.tracaonline.com.br/resenha.php?id=34

P.S.3: Não fora de tempo, na palavra do próprio Holden encontramos o porquê do nome do livro: “Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando no campo de centeio. Milhares de garotinhos e ninguém por perto. Eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê eu tenho que fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo.”

P.S.4: Será que agora volto de vez para o blog? Mistério...